segunda-feira, dezembro 11, 2006

O SEGREDO DE UM BOM CONDUTOR

Neste fim de semana que passou, ouvi novamente o CD Conduzir, do Duca Belintani. Sua veia para suingue com pinta tupiniquim jorra fraseados envolventes e bem diversificados. Pequenas paisagens sonoras. Embora seja bastante associado ao blues, principalmente por conta de seus livros didáticos, o guitarrista garante ser desprendido de um estilo específico. “Me agrada poder ligar o rock, o pop, a musica caribenha ou o rap”, revelou. “Vejo a minha pegada bem brasileira, em que xote, baião e afoxé estão presentes, além de blues, rock e jazz”.
Conduzir traduz de maneira amadurecida esse processo e garante boas passagens de guitarras. A equação improviso-temas preconcebidos resulta na linha principal do estilo de Duca Belintani. E é com precisão que seus fraseados são harmoniosamente costurados numa delicada colcha sonora de onze faixas. Enquanto ouvia a segunda delas, Fumaça, notei uma sutil evidência do clássico Asa Branca, do mestre Luiz Gonzaga. E aí, Duca... é isso mesmo? “Saiu sem querer, totalmente espontânea”, garante. “Numa outra música, que ficou fora do CD, o técnico de som achou o Hino Nacional e eu não tinha percebido”.
Isso deve ter acontecido porque, durante um improviso, nosso repertório de informações está fervilhando na ponta dos dedos e da palheta. O segredo está no uso das nossas influências sem comprometer a canção nem tornar o solo piegas. Exato, Duca Belintani conseguiu “conduzir” bem sua pegada (com o perdão do meu trocadilho) e o resultado ficou agradável.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

STEVE MORSE: UM SHOW À PARTE NO DEEP PURPLE

Foto: Divulgação Tom Brasil
Nem mesmo as quase quatro décadas de estrada impedem o Deep Purple de fazer uma apresentação impecável. A atual turnê, que divulga o disco Rapture Of The Deep, passou pela segunda vez no Brasil. Dia 29 de novembro, o quinteto inglês esteve no palco do Tom Brasil (São Paulo) para carimbar as novas e as consagradas canções. Festa do início ao fim. Embora a diversão estivesse garantida, o público foi presenteado com uma grande surpresa de Steve Morse. Na tradicional performance solo, o guitarrista preparou um bem-bolado de clássicos do rock alternados por majestosos e inspirados solos. Steve contou com a participação do baterista Ian Paice e do baixista Roger Glover. Assim, o momento que era “seu” se transformou numa memorável jam session. O público mal pôde acreditar quando clássicos de ACDC, Guns N’Roses, Beatles, Jimi Hendrix, The Doors foram executados entre um solo e outro. O trio fez apenas referência aos riffs e melodias mais famosos, mas arrancou urros da platéia como se fossem os próprios referidos no palco. Um show à parte.
Henrique Inglez de Souza

sábado, dezembro 02, 2006

TARDE MUTANTE


“O Arnaldo é o amor da minha vida”, desabafou Sérgio Dias na coletiva que os Mutantes deram nesta semana. Para os menos atentos, há pouco mais de três décadas o grupo sofria sua segunda e decisiva perda, depois da expulsão de Rita Lee. Arnaldo Baptista preferiu seguir em carreira-solo porque seu irmão passou a usar guitarras Fender. Acreditem nessa! Por essa razão, era no mínimo curioso encontra-los juntos outra vez. Logo veio a explicação: “minhas Stratocaster estão encostadas em casa”. Pois é, Sérgio Dias resgatou sua velha e clássica Régulus para acrescentar mais autenticidade ao som dos Mutantes reformados. “Foi muito bom tocar com ela novamente”, atestou. Na coletiva estavam todos: Sérgio Dias, Arnaldo Baptista, Dinho e a “novata” Zélia Duncan. O prato principal era apresentar o lançamento “Ao Vivo” (em CD e DVD) e tudo que envolveu o retorno do grupo. Em pouco mais de uma hora, aquela tarde nublada e abafada se transformou numa oportuna conversa amistosa e descontraída. No final, não deixei de cumprimentar Sérgio Dias, o primeiro brasileiro a colocar guitarra na MPB. Emoção reforçada pela simpatia do guitarrista e seu sorriso honesto. Valeu!
Henrique Inglez de Souza

sexta-feira, novembro 24, 2006

REFÚGIO PARA A ALMA


O violeiro Paulo Freire me mandou recentemente o disco que acabou de produzir. Trata-se de Urucuia, do mestre Manoel de Oliveira – o Seu Manelim. Para quem gosta de música regional, vulgo caipira, são dezesseis bons motivos para ouvi-lo inúmeras vezes. Das mãos já calejadas pelos anos saem melodias e fraseados delicados – ora tristes, ora carregados da folia campestre. Seu Manelim brinca à vontade com sua velha viola e nos ensina o quão valioso pode ser um instrumento de madeira e cordas. Não estou falando de dinheiro. Me refiro àquilo que, para mim, é o grande valor da música: estimular os diferentes sentimentos que, por hora, esquecemos e nos são revigorados com uma simples combinação de notas. Essa sensibilidade, somente quem é capaz de entendê-la consegue nos fazer tocar. Esqueça de barulho, esqueça do trânsito, encontre um lugar aconchegante para deitar – de preferência uma rede – e escute Urucuia despreocupado do lado chato da vida. Tenho certeza de que sua alma encontrará refúgio garantido para repousar um tantinho. Comigo deu certo.

domingo, novembro 12, 2006

PEQUENAS MANIAS

Todo guitarrista tem uma mania. Durante o papo que tive com Dado Villa-Lobos, da extinta Legião Urbana, falávamos sobre a canção Índios (disco Dois - 1986). Eu queria saber mais sobre essa gravação. Foi então que o guitarrista carioca me explicou o seguinte: “era simplesmente um tema instrumental. Quando estávamos mixando essa faixa, o Renato Russo chegou com a letra e cantou, provavelmente, num take. O violão do final também entrou depois, gravado ali, junto com a letra – foi o Renato que tocou o violão. Eu não toco absolutamente nenhum instrumento em Índios. Assim como no primeiro disco eu não toquei em Por Enquanto. No disco Que País É Este 1978/1987, não toco em Angra dos Reis e assim por diante. Foi como uma superstição: em uma das faixas eu devia não tocar (risos)”. Isso que é mania! Qual é a sua?